Texto transcrito
Padre José Eduardo
@pejoseduardo
Pelos idos de 1999, um professor nos contou, a nós, seminaristas, um acontecimento miúdo e, por isso mesmo, revelador. Em Guarulhos, surgiu um padre de manual: batina impecável, faixa, peregrineta, barrete, breviário na mão, óculos redondinhos, a iconografia inteira cuidadosamente pendurada no corpo. Era antes do 11 de setembro; os aeroportos ainda tinham aquela displicência civilizada de quem não suspeita de tudo. Mas um policial, homem de ofício e sem vocação para o encantamento, olhou e achou: “perfeito demais!”. De fato, perfeição em excesso tem cheiro de fraude.
Mandou revistar. E, sob a negra batina, negra como convém aos símbolos quando querem ser definitivos, vieram à luz alguns quilos de pó. O susto não foi só do policial; foi nosso também, porque a cena tinha a obscenidade pedagógica das coisas verdadeiras: a aparência não era apenas uma máscara, era uma estratégia; pois tudo que não é verdadeiro precisa esmerar-se em parecer não sê-lo. Na época, ouvimos como anedota; hoje, dou-me conta de que o tempo transformou-a em parábola eclesiológica!
Quem puder compreender, que compreenda.
