segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Eu vi uma coisa

Esta narrativa abaixo foi feita por Clarice Lispector. :
Eu vi uma coisa. Coisa mesmo. Eram dez horas da noite na Praça Tiradentes e o táxi corria. Então eu vi uma rua que nunca mais vou esquecer. Não vou descrevê-la; ela é minha. Só posso dizer que estava vazia e eram dez horas da noite. Nada mais. Fui porém germinada”.  

Clarice Lispector Rio, Ed. Rocco, 1999, A descoberta do mundo, pg 51

O que a autora queria dizer com isto?
A que ela se reporta? O que ela viu? O que a “germinou”de forma tão significativa?
O que ela não quer descrever?

“Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia”(Shakespeare). 

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Uma estranha visita



Depois de 20 anos, revi um dos primos no aniversário de 80 anos de meu pai, quando familiares e amigos estiveram presentes na fazenda em Dueré. No meio de celebrações e comilanças típicas de uma família mineira, tivemos a oportunidade de atualizar informações, ouvir histórias, contar velhos “causos” e dar risadas. Num calor de 35 graus, debaixo da sombra de uma grande árvore, ouvi a história contada por este meu primo, Jonas Teixeira.
Por causa da grande quantidade de cigarros que fumava, ainda cedo sua saúde começou a apresentar uma série de debilidades: Já teve 5 infartos, e ultimamente as complicações renais o levaram a ficar internado durante 5 meses num hospital em Belo Horizonte, e numa de suas crises, amputou o dedo esquerdo de um dos pés. A urina passou a ser feita através de sondas, e ele não conseguia manter-se em pé, ou mesmo forçar o pé no chão por causa das dores lancinantes.
Uma amiga de sua empregada evangélica que orava pelo Jonas, compartilhou com outra pessoa o que estava acontecendo com seu patrão, assim como fez a menina que havia sido levada como escrava para a Síria, para servir Naamã, o comandante do exército. Ela anunciou que havia um Deus em Israel que poderia curá-lo de sua lepra.
Aquela amiga seguiu imediatamente para o hospital. Ao chegar viu o quarto cheio de familiares e amigos, e pediu a todos que saíssem, inclusive a esposa, para que pudesse orar por ele. Antes de terminar a oração, aquela mulher disse que Deus o havia curado, que ele deveria crer nesta palavra, e ele confirmou que cria que Deus o havia curado e adormeceu antes do final da oração. Quando acordou de madrugada sem sentir dor, estranhou que estivesse num quarto de hospital, tirou a roupa e foi para o banheiro, sozinho, urinou longamente depois de muitos dias, tomou um banho, e quando sua esposa chegou, estava de roupa trocada e foi repreendido por ela, mas ele serenamente disse que estava curado, que não sentia nenhuma dor e que decidiu fazer o que fez.
Exames posteriores revelaram que suas taxas estavam normalizadas, recebeu alta e encontra-se em sua casa. Esteve conosco vindo de Minas Gerais para se encontrar com a família, comeu e bebeu com alegria, alegrando também nosso coração pelo reencontro, com o estado de saúde normal. Louvado seja o Senhor!

Jonas não é o tipo de pessoa que diríamos “evangélico ou religioso”, na adolescência batizou na Igreja Presbiteriana de Mutum, mas se afastou da comunidade. Ele percebe que precisa de um aprofundamento na sua fé e manifesta desejo de ser um discípulo de Cristo, saindo de uma relação de alguém que recebe o favor, mas que não se submete a Cristo com todo o seu ser, mas o que ele experimentou certamente nos revela a grandeza deste Deus, que nos amou de forma tão generosa e graciosa.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Um sonho perturbador



De origem simples, aos 22 anos, Abraham Lincoln era um balconista de uma loja numa pequena cidade no interior de Illinois. Ele começou a estudar direito com livros emprestados e obteve licença para exercer a advocacia aos 27 anos. Aos 52 anos tornou-se presidente dos Estados Unidos, em Março de 1861, quando desencadeou-se a Grande Crise daquele país, já que logo após os resultados eleitorais, sete estados do Sul desligaram-se da união por causa de sua vitória.
Ele foi assassinado no Teatro Ford, em Washington DC, por John Wilkes Booth, um ator que levou consigo apenas uma pistola de cano curto e grosso calibre, e com uma só bala, abriu a porta do camarote e deu um tiro à queima roupa no presidente que morreu na manhã seguinte.
Apesar de seu arquivo particular ter registro de quase 80 ameaças de morte, ele de fato não se preocupava com estas possibilidades, até que, poucos dias antes de morrer, ele dormiu tarde e sonhou que alguém tinha morrido na Casa Branca. No sonho, ele descia as escadas e entrava no Salão Oriental onde viu um caixão guardado por vários soldados e rodeado por muita gente. Quando Lincoln perguntou a um destes soldados quem havia morrido, ele respondeu: “O Presidente. Um assassino o matou!”
Se as ameaças não o haviam incomodado, o sonho sim. Ele acordou e não dormiu mais. Posteriormente pegou a Bíblia e abriu em Gênesis 28, que narra o sonho de Jacó, e nas leituras seguintes sempre se deparava com um sonho ou visão.

Ele contou este sonho à sua esposa, Mary Told, e a outras 3 ou 4 pessoas. Para não deixar sua esposa preocupada, ele a acalmou dizendo: “É apenas um sonho!” Algum tempo depois, ele se cumpriria na integra.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Deus continua falando através de pessoas inesperadas.

Rev. Paulo Long, foi missionário durante muitos anos no Congo e no Brasil. Muitas das Igrejas presbiterianas plantadas no Norte de Goiás e Tocantins, resultaram de sua enorme visão e incansável zelo pela obra do Senhor.
No seu livro, “O homem de chapéu de couro”, relata que em 1963 encontrou em Gurupí-TO, o  Seu Benigno, (pessoalmente tive o prazer de conhecer este homem e até hoje sou amigo de seus filhos), nos dias que a Belém-Brasília estava sendo construída. No primeiro encontro aquele homem estava acompanhado de sua esposa e ambos demonstraram muita perturbação e irritação durante o tempo que o famoso pregador Patrício Lili, de origem indígena, tentava pregar a um grupo de pessoas que se reunia na rua empoeirada. Eles ficavam rindo e fazendo de tudo para chamar a atenção das pessoas para que não ouvissem a mensagem.
O Rev Paulo longo perguntou ao Patrício porque aquele casal se opunha tanto á pregação do Evangelho, e como ele viera conhecia este mundo espiritual, explicou que ambos estavam debaixo da orientação de espíritos malignos. Explicou que somente Deus seria capaz de mudar suas mentes e suas vidas, porque eles estavam escravizados por forças espirituais. Patrício já havia trabalhado entre tribos indígenas e vira muitas vezes pessoas sob influência poderosa de entidades.
Seu Benigno era também descendente de negros e indígenas e conhecido macumbeiro na cidade. Sua esposa recebia espíritos malignos, e embora dissesse que queria se comunicar apenas como bons espíritos para ajudar as pessoas, na medida em que se envolvia com tais espíritos tinha que se submeter às exigências cada vez maiores do diabo.
No dia seguinte ao se dirigiram para um local onde iriam se reunir, cerca de 60 pessoas vieram para ouvir o pregador, e como o espaço era pequeno, um número igual de pessoas ficou do lado de fora olhando pela janela. Seu Benigno e D. Marta estavam entre eles. Na medida em que Patrício pregava eles começaram a objetar. Isto começou a perturbar o encontro e algumas pessoas queriam expulsá-los da reunião, mas o Rev. Paul Long insistiu para que ficassem e ouvissem a palavra. Eles ficaram mas estavam visivelmente irados com a pregação. Quando terminou o sermão, o Rev. Paul lhes perguntou se gostariam de receber uma oração dizendo que via as batalhas dentro de suas vidas e que somente Deus poderia libertá-los.
Marta saiu empurrando a platéia, mas o Seu Benigno foi à frente para receber a oração. Ela saiu gritando e dizendo: “Você está louco, Benigno!”, mas apesar de seus protestos, eles ajoelharam e oraram. Depois da oração, embora nada exterior tivesse acontecido, alguma coisa parecia ter mudado em sua vida.
Seu Benigno tinha uma pequena cerâmica perto da construção da igreja e começou a vender tijolos para a construção. Gradualmente o ódio do coração contra a igreja e o missionário foram diminuindo e ele se mostrava cada vez mais sedento para saber do evangelho. Depois de 6 meses assumiu a vida cristã e foi batizado, mas as lutas espirituais, opressão satânica e o desespero maligno continuavam ainda muito forte sobre sua vida, mas foram vencidas com oração e jejum.
Um dia Rev. Paul Long lhe perguntou porquê ele se tornara cristão e ele contou uma história curiosa.
Sua cerâmica só podia funcionar durante os dias secos do ano, e na época de chuva ele precisava de outro serviço para sustentar a família. Ele ia longe para trabalhar, e sempre que estava voltando era assaltado na pobre e violenta região que vivia. Isto o deixava furioso. Ele tentou fazer uma macumba para aquelas pessoas, mas parecia não funcionar, um dia um espírito maligno lhe falou sobre uma mulher, macumbeira famosa, conhecida como “Rainha do Araguaia”, e lhe disse onde ela poderia ser encontrada.
Benigno andou três dias para se encontrar com ela na sua choupana no meio do mato. Quando ali chegou, sem que o conhecesse, ela abriu a porta e disse: “Pode entrar Benigno, eu estava esperando por você!”. Ele entrou e perguntou como ela sabia seu nome e ela respondeu: “Eu vi você quando saiu de sua casa e andando no meio do mato. Você quer poder para amaldiçoar seu inimigo, mas você é um bobo”. E então pediu que olhasse para a parede de sua choupana que tinha a fotografia de um animal correndo de um cachorro, e um caçador esperando-o para o matar. E ela disse: “Benigno, Deus deu às criaturas o senso do perigo para correrem dele, mas você é um bobo, você deve correr para salvar sua vida”. E apontou para outra parede onde havia alguns livros: “Estes livros falam do mundo espiritual e como usar estes poderes para lutar contra inimigos, mas o preço de andar com os espíritos invisíveis é a escravidão”, e em cima da mesa havia um livro, era uma bíblia, e aquela macumbeira lhe disse algo inusitado. “O que você precisa Benigno, não é de poder espiritual para destruir seu inimigo, mas do poder de Deus para ter vida. Vá, compre uma bíblia, leia-a e siga seus ensinamentos. Não seja mais um tolo!”
Então Benigno concluiu: “Eu comprei então uma bíblia, comecei a lê-la, e ela me falou de Jesus e como eu poderia me tornar um cristão”.
Depois de sua conversão, quando chegava a estação das chuvas, seu Benigno pegava um animal, colocava bíblias e literatura cristã sobre ela, e saia pelas fazendas, visitando pessoas e falando de Deus. Por três no ano ele se tornava um pregador itinerante. Ele conhecia o mundo dos espíritos que trazia prisão e o poder de Deus que trouxe liberdade à sua vida. Seu Benigno se convenceu das verdades do Evangelho, ouvindo da boca de uma conhecida macumbeira, que ele deveria encontrar as verdades de Deus na Bíblia.

Deus, ainda hoje continua falando fora dos canais oficiais e através de pessoas inesperadas.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Alice: Uma história de milagre




No dia 31 de Dezembro de 2012, a família estava reunida para celebrar a passagem do ano. Chácara agradável, ambiente familiar, muita comida, música e alegria. Um casal de nossa igreja, Christiane Gomes O. Costa e Douglas Lima da Costa estavam ali para celebrar com seus dois filhos, Arthur e Alice, neste evento familiar.
Depois da meia noite e das festas, o caseiro da chácara chamou o Douglas para mostrar um vazamento numa mangueira do quintal e pedir ajuda. Quando estavam chegando perto da piscina, o filho do caseiro veio correndo avisando que havia alguma coisa estranha boiando na piscina. Correram para lá e viram uma criança de fraldas e Douglas imediatamente a tirou sem imaginar que se tratava de sua própria filha, já sem vida.
O desespero toma conta da casa, todos correndo tentando ajudar. E começou o difícil e árduo trabalho de ressuscitá-la. Quanto tempo ela ficou sem vida? Que horas havia boiado? Havia ainda chance de sobrevivência? Massagens feitas, o processo sendo aplicado, até que finalmente a criança começou a vomitar e sua respiração voltou.
Agora surge outra corrida para o hospital da cidade, estavam fora do perímetro urbano, e os familiares ficaram tentando imaginar o que poderia acontecer, enquanto o pai tresloucadamente dirigia seu carro no afã de ganhar um pouco de tempo.

Que seqüelas ficariam na criança? Que efeitos neurológicos poderia ter?
Sabe-se que em qualquer parada cardiorespiratória, após 4 minutos sem nenhuma manobra de ressuscitação, há possibilidade de lesão cerebral e paradas que excedem 15 minutos, raramente resultam em sobrevivência sem seqüelas e 30 minutos invariavelmente evoluem para óbito. Em 3 minutos sem oxigênio o cérebro já apresenta danos irreversíveis, então entre 3 a 5 minutos se dá a morte da pessoa afogada. Especialistas afirmam a criança bóia porque existe algum ar ainda retido nos pulmões, e  quando acontece o afogamento completo, sem ar algum nos pulmões, o corpo afunda e somente volta a boiar quando começa a decomposição, entre 12-24 horas depois.
No afogamento ocorre deglutição de água, devido ao pânico, período que tem a duração de 1 a 2 minutos. A partir daí, em 85 a 90% dos casos, ocorre o afogamento úmido com o relaxamento laríngeo, aspiração de líquido, aumentando a hipóxia e resultando em edema pulmonar, anóxia e morte.

Ao chegar ao hospital, Alice foi imediatamente levada para a UTI, para checar como estava o pulmão. Já era mais de 1 hora da madrugada, e os pais ficaram ali, tentando assimilar tudo e preocupados com o prognóstico. Neste tempo, foram ler a Palavra de Deus, buscando conforto e orientação para a dor e o medo de tudo que acontecera e do que ainda podia sobrevir. Christiane abriu em Daniel 3, que narra a experiência de Sadraque, Mesaque e Abedenego sendo livrados da fornalha de fogo ardente, e quando foram resgatados, diz a bíblia que “o fogo não teve poder algum sobre o corpo destes homens; nem foram chamuscados os cabelos da cabeça, nem os seus mantos se mudaram, nem cheiro de fogo passara sobre eles” (Dn 3.27).
O médico de plantão lhes recomendou que fossem para casa, e saíram do hospital às 4 hs da manhã, aliviados, mas ainda muito tensos com toda experiência. Às 7 hs já estavam novamente no hospital, e ao chegaram à UTI pediátrica, ouviram choros de criança, logo identificados com os da Alice. A enfermeira veio encontrá-los dizendo que tudo aquilo era birra dela porque não queria tomar banho, e que já estava recebendo autorização para sair da UTI e ir para um quarto para um tempo de observação. Naquele mesmo dia, recebeu alta.
Registramos este fato para que as futuras gerações saibam que Deus nos abençoou como comunidade.
Talvez explicações científicas possam ser dadas a todo este evento, mas ainda glorificamos a Deus por várias razões:
  1. Por que motivo Douglas teria que sair de casa, em torno de 1 hora da manhã para ver uma mangueira vazando ao redor da piscina?
  2. Numa festa familiar, com outras crianças, quem daria falta dela? Era normal supor que estivesse dormindo?
  3. Quanto tempo Alice esteve na piscina? Não é providencial lembrar que foram “conduzidos” àquele lugar?
  4. E as seqüelas? Nenhuma delas registrada. Alice não teve nenhuma complicação pulmonar, ou qualquer efeito neurológico.

Por todas estas razões queremos glorificar a Deus, que nos visitou de forma tão amorosa, evitando que uma tragédia viesse sobre nossas vidas. Louvado seja o Senhor!

domingo, 4 de novembro de 2012

Incandescente



Em Sinop tivemos a alegria de sermos hospedados pela família Huck: Sr. Waldemar e Dália. Ele, descendente de alemães, ela de japoneses. Recepção vip. Gente que sabe receber e deixar o visitante à vontade.

Eles nos relataram uma cena inusitada: um dia vão pescar e resolvem ajoelhar no meio das folhas e orar. De repente, os gravetos começam a brilhar. Da parte de cima das folhas secas, até o caule. Ficaram maravilhados pela experiência e daí para frente este fenômeno passa a acontecer com certa regularidade.
Um dia, ele resolve recolher alguns destes gravetos e levar para o acampamento onde os outros pescadores estavam reunidos. O brilho durou cerca de 15 minutos, até esmaecer e acabar. Doutra feita, um irmão levou para sua casa um dos toquinhos que brilhavam, ele queria mostrar à sua esposa. O toquinho chegou incandescente ate lá, e depois de algum tempo apagou.

Muitas pessoas curiosas acorreram para lá e eram "agraciadas" com o mesmo fenômeno. Combinaram reuniões de orações, e ali se emocionavam com o feito, eram quebrantadas e confessavam reverentemente seus pecados diante de Deus. Certa madrugada,combinaram de orar as 4 hs. Quando o Sr. Waldemar ia levantar, percebeu que ao tocar no colchão, ficava uma marca luminosa e brilhante. Chamou o companheiro do quarto para presenciar o fato, e ambos ficaram ali maravilhados pelo que viam.

Duas perguntas surgem quando ouvimos um relato como este, e não estou disposto a respondê-las, apenas a relatá-las:

1. O que é isto?

Não nos parece que esta pergunta evoca a mesma questão  levantada por um grupo no dia do Pentecostes registrado em Atos 2? "Que quer isto dizer?". Esta é uma pergunta filosófica. Muitos querem conceituar, explicar, dar razões. É a tentativa de dissecar fenômenos, explicar milagres. Muitos querem negá-los, mas na verdade, eles sempre existiram na história, e nem sempre serão devidamente explicados. Deveriam sempre ser?

2. Qual a razão destes fenômenos?

Talvez nunca o saibamos, mas quando ouvíamos estes relatos e indagávamos sobre este assunto, percebíamos que uma das coisas mais lindas que podem acontecer na alma humana estava ali presente: Estes  fenômenos geravam reverência, adoração, temor e assombro. Será que existe alguma coisa errada em estar maravilhado? A verdade é que tais pessoas, diante destes eventos, eram motivadas a orar mais, buscar mais, se santificar mais... Seriam estas razões suficientes? Deveríamos sempre dar "razões" para o “numinoso”, conforme pontuou Otto Rank, um dos ícones da fenomenologia da religião? No livro de Atos lemos que "em cada alma havia temor", uma outra tradução fala de "espanto", a NVI na língua inglesa fala de "awe", uma interjeição que pode ser traduzida como a reação de uma pessoa que fica boquiaberta diante do mistério. Não deveríamos ter, na nossa teologia tão cartesiana e apologética, um pouco mais da dimensão do mistério?

Oh! Se fendesses os céus e descesses! Se os montes tremessem na tua presença, como quando o fogo inflama os gravetos, como quando faz ferver as águas, para fazeres notório o teu nome aos teus adversários, de sorte que as nações tremessem da tua presença!” (Is 64.1,2)

O Mundo espiritual


 

Um dos meus 9 tios do lado materno (do lado paterno eram 10) era, de longe, o predileto de minha mãe. Com razão, já que o mesmo sempre a visitava e era o único que morava na mesma cidade. Gostava de almoçar e tomar café em nossa casa, era companheiro de meus pais em dias difíceis, embora discordassem profundamente nas coisas espirituais. Por diversas vezes meus pais tentavam comunicar o evangelho e falar do plano da salvação em Cristo, mas sua resposta era sempre um incomodo silencio.

Quando resolvia falar, era sempre para contraditar, gerar questões, não de forma declarada, mas dialética: “Eu não sei se Deus existe com tanto sofrimento...“. Ou, “Eu não sei se existe esta coisa de céu e inferno“ ou ainda “Por que existem tantas religiões se Deus é um sõ?“. Quem lida com comunicação das verdades da Bíblia sabe que estes argumentos revelam o fato de que coisas espirituais realmente não são tão importantes para tais pessoas.

Ele era boêmio por natureza. Gastava suas noites bebendo, fumando e jogando. Às vezes perdia, noutras ganhava, e muitas vezes passava não apenas horas, mas dias e noites inteiras, ao redor de uma mesa de jogo. Tinha um temperamento forte e não era de levar desaforos para casa, algumas vezes chegou a empunhar armas para inibir seus desafetos. Gostava de dirigir em alta velocidade e detestava toda limitação física. Parecia ser dominado pelo pensamento mágico de que a enfermidade não o dominaria. Por isto não se entregava, nem se rendia.

Herdou de sua mãe uma propensão à pressão e colesterol altos, coisas estas que, infelizmente, também herdei, mas ele rejeitava se submeter aos tratamentos médicos, tomar remédios, e muito menos fazer qualquer dieta. Com o tempo, tornava-se claro que ele gostava mesmo de ser contraventor. Se lhe era dito para não comer comidas gordurosas, torresmos e frituras, era exatamente isto que ele queria nas refeições.

Com pouco mais de 60 anos, seu corpo sucumbiu e ele teve seu primeiro AVC., e daí para a frente seu quadro de saúde foi se complicando. Isto não o intimidou, pois ele parecia realmente acreditar que nada deveria limitá-lo. Veio assim o 2º AVC, que definitivamente o fragilizou, tendo de ser deslocado para Belo Horizonte, em busca de melhores tratamentos, num pequeno monomotor com UTI móvel para a capital mineira.

Ali, pela primeira vez, começou a admitir a possibilidade de buscar a Deus. Se por oportunismo ou necessidade, nunca o saberemos, mas quando a saúde permitia, ia atrás de igrejas pentecostais que anunciavam curas físicas, mas seu quadro se complicava cada vez mais. Os excessos de jogatina, bebida e especialmente do cigarro parecia ter deixado danos permanentes e irreversíveis.

Por alguns meses esteve internado em Belo Horizonte, e algumas pessoas, entre elas minha mãe e eu, orávamos, não apenas pela sua saúde, mas pela sua vida espiritual tão relapsa e distanciada de Deus. Neste tempo eu estava morando fora do Brasil e muitas vezes orei por ele. Numa noite, ele teve uma visão, alucinação ou sonho. Via-me acompanhado de uma pessoa vestida de branco, cujo rosto ele não conseguia distinguir, se aproximando do seu leito de hospital e orando por ele. No dia seguinte, queria me ver e perguntou para a acompanhante onde eu estava com aquele homem, porque a nossa presença tinha trazido muita paz ao seu coração, quando as pessoas disseram que eu não estivera ali, ele foi veemente em afirmar que sim.

Infelizmente ele não resistiu a enfermidade, vindo a falecer algum tempo depois. Desde que este episódio me foi narrado, tenho tentado entender seu significado. Será possível que a intercessão se torne assim tão concreta que se materialize a favor de outras pessoas? Que significado este episódio teve para sua vida?. Em Atos 12 lemos que, enquanto a igreja orava a favor de Pedro, um anjo abriu as portas da prisão por onde ele pode sair. Teríamos vivido alguma coisa semelhante aos dias primitivos com este evento? Teria Deus enviado um anjo para consolar meu tio, por causa da oração que fazíamos a seu favor?

Nunca teremos respostas conclusivas a estas perguntas, mas para meu tio, naquela cama de hospital, aquela experiência fora profundamente real.