quinta-feira, 13 de abril de 2017

Uma oferta de paz



No livro O Totem da Paz,  (Don Richardson, Ed Betânia, Venda Nova, 1974, pg 208-218), há um relato intrigante presenciado pelo autor de uma cerimonia de paz entre o povo sawi e kamur, na antiga área holandesa da Nova Guiné.
Durante alguns anos o missionário tentava manter a paz entre os dois povos, em vão. Os conflitos tribais faziam parte dos rituais e lutas entre as diferentes etnias e tais brigas eram históricas. Cansado de presenciar tantas brigas e mortes, Richardson ameaçou sair da região caso eles não vivessem em paz. Para aquelas tribos isto seria um desastre, porque além da saúde e cuidados, ele trazia ferramentas como machados, facas, facões, enxadas, que eram muito úteis para pessoas que tinham que lidar com a floresta.

Então,  um fato inesperado aconteceu.
Um dia, ele ouve um estranho barulho entre estes dois povos, e saiu assustado pensando se tratar de mais uma briga. Foi quando ele viu nos braços de Mahaem, líder dos Sawis, com seu pequeno filho de seis meses, e atrás dele sua esposa Syado soluçando compulsivamente. O povo kamur, em massa, também descia de suas casas. A criancinha agarrada ao pescoço do pai, parecia passiva e inconsciente de que algo incomum pudesse acontecer.
Syado desesperada tentava retirar a criança das mãos do pai, mas em vão. A aldeia entra em convulsão e murmúrio, gritos de mulheres apreensivas, e o missionário ouvia o pai gritando palavras incompreensíveis e toda aldeia em grande tumulto.
A seguir, o pai entrega seu filho ao seu irmão dizendo que não tinha coragem de fazer o que precisava. O missionário não sabia o que aquilo significava e ficou apreensivo pensando tratar-se de algum sacrifício de criança. A certa altura, um homem da outra aldeia destacou-se do grupo e correu em direção a seu filho Biakadon, seu único filho que estava deitado na esteira. Só então sua esposa Wumi percebeu o que ia acontecer e saiu correndo atrás do marido, suplicando-o com toda força que não fizesse aquilo.
Fracassada do seu intento, ela deixou-se cair numa poça de lama e numa angústia profunda de alma, impotente, começou a gritar: “Biakadon, Biakadon, meu filho!”
Quando os dois homens se aproximaram, e disseram um ao outro: “Você quer defender os interesses do seu povo perante o meu povo?” e mediante resposta positiva, trocaram seus filhos, e as duas aldeias ergueram-se com gritos de kahap kaman, que fazia a terra estremecer.
Logo que uma das tribos se distanciou, o homem gritou: “Aqueles que aceitam esta criança como oferenda de paz, venham aqui e imponham as mãos sobre ela” e foi então que todos, puseram-se em fila e foram colocando a mão sobre a criança, demonstrando sua aceitação pelo tratado de paz.
Sem entender o ritual, o missionário apressou-se a indagar o que aconteceria com as crianças que agora foram trocadas de tribo. Seriam elas sacrificadas? Que tipo de sacrifício seria este?  Algumas parentes da mulher orfanada de seu filho se acercaram dela e começaram a chorar juntas, enquanto o novo membro de tribo era levado para a “casa dos homens”.
O que aconteceria a estas crianças?
Um dos homens mais próximos lhe explicou: “Elas não sofrerão dano algum, pelo contrário, as duas aldeias vão proteger a vida desses filhos da paz com mais cuidado do que protegem seus próprios filhos. Porque se eles morrerem, a tribo não mais estará obrigada ao acordo de paz.”
A paz fora comprada por um alto preço.
As crianças ganharam diferentes nomes e nova família, não era mais um estranho, mas fora acolhido como um homem daquela tribo. Depois deste evento, as tribos novamente se encontraram, agora como um único povo para dançar, formando círculos que simbolizavam um abraço maior, e carregando seus penhores de paz, vivos e alegres. A inimizade e a desconfiança agora desapareceram. Se um homem dava seu filho para seus inimigos, então ele poderia merecer a confiança. Esta prova de sinceridade eliminava qualquer sombra de dúvidas.

Ao ler este relato, pude imaginar o que Deus conosco:

Ele deu seu único Filho. A diferença é que nada demos em troca.
Ele deu seu único Filho. Mas ele não foi poupado, mas de fato morreu.
Ele deu seu único Filho para reconciliar seus inimigos, trazendo a paz. O ofendido faz uma oferta de paz aos ofensores.
Sua iniciativa foi unilateral.
Ele sofreu toda a dor de ver seu Filho humilhado, para nos resgatar dos nossos pecados.
Mas a paz foi feita, mediante seu sangue.
A parede da separação agora foi destruída. Justificados diante de Deus, agora temos paz por meio do sangue de seu Filho.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

De arrepiar...



Amo romances e biografias...
Certamente são as leituras que mais aprecio nos últimos anos.
Já li muita filosofia, teologia, mas hoje gosto de pegar um romance água com açúcar de autores como John Grishan e Nicholas Sparks e apreciá-los.
Gosto de biografias.
De homens de sucesso e de missionários. Estes me dão a impressão de que o que faço é muito pouco, mas encorajam muito o meu coração e me desafiam tremendamente.

Em 2011, recebi do Faustino Jr, um livro autobiográfico de sua mãe, D. Francisca Serafim dos Santos, que apesar do título despretensioso “A menina que espantava pássaros”, me trouxe grandes inspirações. Ela era esposa do Rev. José Faustino, e nasceu na fazenda Areias-RN, nos idos de 1930, que como ele mesma afirma “era outro mundo”. Tenho a alegria de conviver com Débora, sua filha, uma brilhante doutora e professora universitária, casada com meu amigo e colega Rev. Heráclito- que moram em Anápolis.
Quando D. Francisca e Pr Faustino moravam em Salgueiros, ao voltarem de uma congregação da igreja, tiveram uma experiência de arrepiar...

“Tava bem escuro, eram pelas 11 horas da noite, nenhuma luz, exceto os faróis do Jipe na estrada de terra entre as moitas de mato. De repente vimos a uns 100 metros à frente um casal de noivos: a noiva toda de branco com um véu, segurando uma grinalda, de braços com o noivo. Ele alto e magro, todo num elegante terno preto. O Jipe foi se aproximando e nós vimos que não tinha mais ninguém na estrada além dos noivos. Eles vinham andando na direção do jipe de frente par nós, na beira da estrada. José diminuiu a marcha e fomos chegando, chegando, e passamos bem perto deles, eles vinham pelo lado do motorista. Quando estávamos passando, eles olharam para nós e sorriram sem dizer nada. Os rostos eram pálidos, olhos fitos em nós e um risinho leve. Um arrepio transpassou minha espinha. O jipe passou. Jose também se arrepiou , ficamos pálidos e mudos, uns 50 metros na frente jose parou. Olhamos para trás, só escuridão e poeira, José observou:
-Preta, não tem mais ninguém na estrada. Donde esses noivos apareceram?
Curioso, José manobrou o Jipe na estradinha estreita, fez a volta e focou os faróis na estrada. Esperamos a poeira sentar e... nada, nem sinal dos noivos! José deu marcha no jipe e voltou bem devagar até mais ou menos o ponto onde passamos por eles. Nada, nada!
-Vige, Preta, vamo simbora depressa! – disse.
Manobrou rápido o jipe, deu meia volta e acelerou à toda. Nunca esqueci aquela cena. Não temos explicação. O que foi aquilo? Como explicar essas coisas? José acredita que foram manifestações do maligno para dar medo na gente, ja que não cremos em fantasmas. Só pode ser isso. Mas se era para dar medo, conseguiu, pois ficamos mesmos arrepiados na hora. Já pensou, no meio do mato, naquela escuridão toda? Mas passado o susto, chegando em casa, oramos e fomos dormir tranquilos.

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(...) Embora a gente nunca fizesse alarde isso sempre causava medo, é claro, na hora, mas depois acabou virando mesmo boas histórias para contar nos alegres encontros em família, junto a outras dezenas de causos de malassombro que o povo contava e que fa parte do folclore do sertão”. 



Do livro, A menina que espantava pássaros, Francisca Serafim dos Santos, Sao Luiz-MA, 1a Edição, 2010, Pg 113,114.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

O mundo dos “espíritos”



Conheci o diácono Benigno na cidade de Gurupi-TO nos meus tempos de menino. Até hoje temos relacionamento com sua família, porque o meu pai “adotou” dois rapazes como “filhos do coração” e na sua festa de 80 anos, resolveu convidar apenas estes dois para o evento. O Natalino e o Lourivan, este, filho do Sr. Benigno.
Apesar de conhecer o Sr. Benigno, nunca soube de sua história de conversão, até ler o livro “The man in the leather hat” (Grand Rapids, MI, Baker Book House, 1986), com relatos missionários do Rev. Paul Long, que serviu a Missão Presbiteriana dos Estados Unidos (PC-USA), no Congo e no Brasil, de 1953-1980. Long foi um ativo evangelista e plantador de igrejas em todo o Estado de Goiás e Tocantins. Um dos capítulos fala da conversão do Sr. Benigno.
Sua história é encantadora e assustadora.

Paul Long relata que se encontrou com eles em Gurupí, 1963, quando a Belém-Brasília ainda estava sendo construída.  Ele e sua esposa pareciam extremamente agressivos e ameaçadores, e quando os missionários tentaram pregar no mercado da cidade, este casal ria alto e fazia barulho para distrair as pessoas e impedir que outros ouvissem o evangelista Patrício Lili enquanto pregava. Quando Long tentou entender porque agiam assim, Lili afirmou que “estavam sob a direção de espíritos malignos, e somente Deus poderia mudar a atitude de suas vidas, porque estavam escravizados a demônios”.

Benigno era mestiço de negro e índio, tinha raízes em religiões animistas e era temido por ser uma pessoa que dizia “ter contato mediúnicos com seus ancestrais”. No dia de um evento evangelístico preparado para a cidade, ele e sua esposa foram participar, cerca de 60 pessoas estavam neste encontro e assim que o culto começou eles começaram a perturbar e as pessoas decidiram tirá-los do salão, mas o missionário interviu e pediu que ficassem. Durante todo o culto eles olhavam com raiva para os pregadores. Apesar disto, quando as pessoas foram convidadas para a oração, ele decidiu vir à frente, apesar dos protestos de sua esposa, que saiu do lugar dizendo que ele estava maluco em aceitar a oração, e na saída, quando se encontraram, as altercações foram ainda maiores.
Benigno tinha uma cerâmica artesanal perto da cidade, e os missionários resolveram comprar seus tijolos, que eram os melhores da cidade, para construir o templo. Gradualmente, a ira contra o Evangelho transformou-se num profundo desejo para ouvir a Palavra de Deus. Sua vitória sobre a ação maligna não foi algo instantânea, durante seis meses ele lutou contra opressão espiritual e desespero, até se tornar livre pela oração e jejum.

Um fato seria definitivo na sua conversão: 

Sua cerâmica só funcionava durante as estações secas do ano, então, ele precisava ganhar um pouco mais durante estes dias, para manter sua família nos outros meses difíceis. Na estação da chuva, ele viajava vendendo mercadorias nas fazendas, e voltava para casa trazendo algum dinheiro, mas um ladrão da região via seus movimentos e o assaltava, roubando-lhe o dinheiro. Isto aconteceu algumas vezes e ele não conseguia se defender, e isto o deixou furioso. Finalmente, um dos “espíritos malignos” que o guiava lhe orientou a procurar uma conhecida macumbeira chamada “A rainha do Araguaia”, porque ela diria como fazer algo no mundo espiritual para destruir aqueles ladrões.
Benigno contou que andou três dias numa região deserta no meio da mata, até encontrar esta mulher, e quando ele chegou à sua choupana, ela lhe disse sem que antes se conhecessem: “Pode entrar Benigno, eu estava esperando por você”. Ele entrou naquela casa de palha e viu uma mulher assentada numa cadeira de madeira e então perguntou: “como você sabe meu nome?” e ela respondeu: “Eu o vi desde que você deixou sua casa em Gurupi e o tenho acompanhado pela floresta, você veio aqui para que eu jogue uma praga sobre seu inimigo, mas você é um tolo”. E o Benigno então lhe perguntou: “Por que você diz que sou tolo?”.
Então ela lhe mostrou uma parede e lhe mostrou um quadro perguntando o que ele via. Ele afirmou que via um veado correndo dos cachorros, e um caçador esperando o veado para matá-lo. Então ela respondeu: “Deus deu até as criaturas mais tolas o senso de perigo para fugir das ameaças”. Então ela lhe mostrou uma prateleira com poucos livros e perguntou o que ele via nelas. O Benigno respondeu que via livros. Em seguida, a feiticeira afirmou: “estes  livros falam um pouco do mundo invisível, e como encontrar poder para se opor aos seus inimigos. O preço deste mundo dos espíritos, é a escravidão. Quem entra em contato com estas entidades, torna-se escrava”. E então, para sua surpresa, lhe mostrou um livro sobre a mesa. Era uma Bíblia.

Ela afirmou:
“O que você precisa Benigno, não é poder espiritual para matar seu inimigo, mas o poder de Deus em sua vida. Vá, compre uma bíblia, comece a ler e seguir seus princípios. Não seja mais um tolo”. Quando ele voltou para sua casa, começou a lê-la, e estuda-la com pessoas que podiam explicá-la e assim assumiu a fé cristã.
Sr. Benigno se tornou um diácono, vendedor de Bíblia e evangelista. Quando o Rev. Paul Long conhecia alguém que estava preso a correntes espirituais, sempre pedia para que ele as auxiliasse, tornando-se assim um “irmão espiritual mais velho”. Sua esposa também se converteu a Cristo, e juntos oravam e jejuavam pela libertação espiritual destas pessoas que estavam presas pelas correntes do maligno.

Conheci o Sr. Benigno assim, distribuindo bíblias e literaturas durante as estações chuvosas na região, e falando do amor de Cristo na cruz. Morreu firme no Evangelho, servindo a Deus e testemunhando do poder libertador de Cristo. Ele viajava de fazenda em fazenda, conversando com as pessoas, compartilhando o Evangelho. Não mais um tolo, mas agora orientado pelos princípios das Escrituras Sagradas.


Até hoje compartilho da amizade de Lourivan, seu filho. Ele é pedreiro, e responsável por todas as construções de meu pai e meu irmão, na fazenda e nesta cidade no interior do Brasil.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Dilema


Certo homem me procurou com um doloroso dilema no coração. Seu neto estava com câncer, diagnosticado 32 meses atrás e depois de muitas idas e vindas, deslocamentos, mudanças, consultas e exames diversificados, tratamentos alternativos, quimioterapias modernas veio o diagnóstico doloroso de que nada mais havia a ser feito, do ponto de vista clínico. Eles iriam apenas continuar dando plaquetas e remédios à base de morfina para aliviar a dor.

Numa conversa casual com um colega de trabalho, este lhe relatou que uma mulher de oração havia orado por sua sobrinha e ela fora completamente curada. E agora, ele queria trazer seu neto para que esta mulher orasse por ele. Sua família não queria, mas ele abrigava no íntimo, o sentimento de que se ela orasse, seu neto seria curado.
O desejo dele se intensificou quando leu o texto de 2 Rs 5, que fala do comandante sírio, Naamã, que veio ao encontro do profeta Eliseu e foi curado. Ele entendeu, que isto significava que, se ele trouxesse o neto dele para que aquela mulher orasse, ele teria chance de recuperação, e veio trazer este dilema para que eu, como pastor, o orientasse.

Meu conselho seguiu a seguinte linha de pensamento:

Primeiro, o texto de 2 Rs fala de um homem pagão, não de um homem crente. Naamã era adorador do deus Rimon, que era cultuado na sua terra. A vinda dele para Israel significava a mudança de um paradigma idolátrico para o Deus verdadeiro. Este não era o caso do seu neto.

Segundo, me incomoda o fato de que existem cerca de 5 mil pessoas (estimado), orando pelo seu neto. Muitas igrejas promoveram vigílias para orar pela sua saúde e vida, e Deus não havia respondido. Será que entre tantas pessoas orando, se a cura depende de uma pessoa de fé, não havia nenhuma pessoa com fé suficiente e sólida para isto? A resposta positiva de Deus depende dos méritos espirituais de alguém? A cura depende da oração do homem (orante), ou dos misteriosos projetos e planos de Deus?

Terceiro, a Bíblia fala de pessoas capacitadas especialmente por Deus com dons de cura, sinais e operações de milagres. Isto indica que quando algum problema específico acontecer, deveremos identificar tais pessoas com estes dons excepcionais e buscá-las? Na verdade este é o principio que leva pessoas a encherem estádios atrás de pessoas com supostos dons, e que ao mesmo tempo, desemboca em exageros por partes destes “ungidos“ do Senhor que se auto proclamam pessoas especiais. Não haveriam pessoas com certos dons especiais distribuídos pelo Espirito Santo?

Quarto, arrazoei com este homem que ele se encontrava numa situação bem complexa: (a)- Trazer o neto e obter a suposta cura; (b)- Trazer o neto e ele morrer, considerando sua fragilidade física e ser acusado pelo resto da vida pela família e por si mesmo, de ter agido impulsivamente.

Por último, fiz a mais terrível das considerações, que comporta um grande dilema: Se ele fosse meu neto, como agiria? Já tenho visto pessoas em desespero agirem de forma impulsiva diante de grandes questões, colocando em risco suas vidas e mesmo morrendo na tentativa de salvar alguém amado. Ele não estava buscando um terreiro de umbanda ou outras pessoas espiritualizadas, mas indo atrás de uma mulher piedosa. Seria válido?


Como você, como se comportaria?